Garota Maldita


      Eu sabia que meu espelho estava mentindo, mas eu não tinha tempo de experimentar outra roupa.
      Meu vestido vermelho de seda desenhava-se perfeitamente bem em meu corpo. Destacava-se sobre minha pele branca. Ele ficava um palmo acima do meu joelho e era tomara-que-caia. Calcei uma sandália gladiadora de salto prata. Eu estava pronta para sair e não estava atrasada. Peguei minha pequena bolsa prata e entrei no meu carro.
      Assim que saí do estacionamento do meu prédio meu celular tocou. O nome na tela não poderia ser outro: Diego. Essa era a 24ª vez que ele me ligava hoje. Ignorei a chamada. Eu não iria falar com ele.
      Dirigi por cerca de 20 minutos até chegar à boate que Soraia me indicara. Eu precisava mesmo me divertir um pouco.
      — Eu sabia que você viria! — falou Soraia, recepcionando-me na porta da boate.
      — Se eu não tivesse vindo você faria eu me sentir culpada a cada respiração — falei e ela me guiou para dentro da boate.
      A música era agitada, não consegui evitar olhar para o DJ. Ele aparentava ser bonito, mas com a enorme distância não dava para ter certeza.  As pessoas dançavam animadamente em todos os cantos. Alguns grupos conversavam perto do bar.
      Eu não me sentia bem em grandes multidões, mas eu adorava dançar, então não poderia ter deixado de vir. Soraia e eu fomos até o centro da boate e começamos a dançar.
      Soraia estava usando um vestido preto com decote em V. Ela adorava usar roupas decotadas e exibir seu corpo. Ela era muito bonita e atraente e conseguia a atenção de todos voltada para ela.
      Soraia tem a pele branca bronzeada e o cabelo tingido de loiro na altura da costela com um corte repicado e uma franja lateral. Seus olhos são castanho claro. Ela adora usar uma maquiagem pesada, mesmo sabendo que fica mais bonita com uma maquiagem mais natural.
      Nós nos movíamos rápida e ousadamente. Não demorou muito até vários olhos masculinos estarem voltados para nós duas. Dois garotos estavam vindo em nossa direção.
      — Eu quero o moreno — falou ela ao meu ouvido.
      Os garotos chegaram perto e Soraia aproximou-se do moreno e o beijou. O outro garoto que era loiro aproximou-se de mim e envolveu minha cintura com uma das mãos. Nós nos beijamos.
      Quando fechei meus olhos apenas um rosto tomou conta de mim. A pele branca bronzeada ainda perfeita, os olhos castanhos ainda tinham a mesma intensidade, seu cabelo castanho escuro estava da mesma forma luminosa que eu me lembrava.
      Eu não podia mais suportar ver aquilo. Eu empurrei o garoto que eu beijava para longe de mim e gritei:
      — Me deixa em paz!
      Meus olhos encheram-se de lágrimas e logo elas escorreram pelo meu rosto. Eu não queria mais sentir isso. Não de novo.
      Soraia me puxou pelo pulso e me levou até o banheiro.
      — Michelle quando é que você vai esquecer isso? — perguntou Soraia. 
      — Eu não sei — falei secamente.
      Ela aproximou-se um pouco mais e enxugou as lágrimas que estavam em meu rosto.
      — Michelle, a vida continua. Ele morreu, você não.
      As palavras dela me feriram como lanças afiadas. Eu o perdera e fora para sempre.
      — Você se importa se eu for para casa? — perguntei.
      — Claro que não. Eu já imaginava que isso aconteceria.
      — Obrigada.
      — Mas você não vai só. Você não vai dirigir.
      Ela pegou minhas chaves na minha bolsa e nós fomos para o estacionamento. Eu me sentei no banco do carona. Nós não trocamos nenhuma palavra durante todo o percurso. Concentrei minha atenção nos pontos luminosos que passavam como flashes pela janela do carro.
      Quando cheguei em casa fui direto para o meu quarto. Minha irmã não estava em casa, estava com o namorado, e minha mãe viajara. Então eu estava sozinha.
      Eu nunca gostara de ficar sozinha, mas nos últimos meses essa era a opção mais agradável. Havia apenas uma pessoa com quem eu queria estar e esse alguém estava morto.
      Morto.
      Eu jamais o veria novamente.

Está tudo tão escuro, e eu estou com tanto frio. Há uma clareira, mas está tão distante. Eu não sei se consigo caminhas, ou chegar até lá antes que eu congele. Mas eu preciso chegar até lá. Eu sei que preciso. Há alguém lá que precisa de mim. Agora eu sinto uma força enorme crescer dentro de mim.
      Eu começo a correr.
      Há fogo por toda parte e o cheiro é insuportável e há alguém gritando. Gritando e queimando. Eu preciso salvá-lo, mas há fogo em toda parte. Como eu posso fazer isso? O calor aqui é quase infernal, mas isso não me faz querer sair daqui.
      Em vão tento atravessar as chamas e salvar o garoto da morte fumegante. Não consigo. Aos poucos os gritos vão diminuindo e as chamas, misteriosamente, somem quando o silêncio mortal toma conta da floresta.
      As chamas somem e eu posso ver quem queimava. Mesmo com o rosto desfigurado por causa do fogo eu o reconheço. Era Matheus quem queimava.

— Não! — gritei ao acordar.
      Eu senti minha garganta doer antes de ouvir o grito. Minha respiração estava acelerada, era como se eu tivesse corrido uma maratona.
      Fiquei sentada na cama por pelo menos cinco minutos tentando afugentar aquelas imagens da minha cabeça. Eu detestava me lembrar da morte do Matheus.
      Foi tudo bastante misterioso, quando os bombeiros chegaram a casa dele não havia mais fogo e nem evidencias do que poderia ter causado o acidente. As chamas simplesmente surgiram, mataram ele e se dissiparam.
      Eu tivera o mesmo sonho na madrugada do dia que ele morrera. Isso me deixou bastante assustada e eu sabia que aquele sonho era um aviso. Eu podia tê-lo salvado, mas eu chegara tarde demais.
      Meu celular me assustou quando tocou, tirando-me de meus pensamentos. Era Diego. Eu não queria falar com ele, mas no entanto eu queria tanto falar com alguém. Apertei o botão para aceitar a chamada.
      — Finalmente você resolveu falar comigo — falou ele do outro lado da linha.
      — O que você quer? — perguntei, um pouco rude demais.
      Diego estudava na minha turma na faculdade. Ele era um ótimo aluno e super simpático. Eu adorava conversar com ele, mas depois que o Matheus morreu eu parei de falar com as pessoas. Exceto com Soraia, é claro.
      — Nossa! Calma, eu vim em paz! — falou ele ironicamente. Se eu estivesse em frente a ele poderia vê-lo levantar as mãos em posição de rendição. — Eu só queria saber se você está a fim de sair.
      — Isso seria ótimo! — falei, aceitando o convite.
      — Então eu vou te buscar em meia hora para almoçarmos daquele restaurante mexicano que você adora.
      — OK — falei e desliguei o celular.
      Almoçar? Que horas eram? Eu havia dormido por tanto tempo assim? Olhei o relógio no meu criado mudo. Eram 11:52. Sim, eu havia dormido demais.
      Escovei os dentes e fiz uma maquiagem rápida apenas com lápis de olho, rímel e um gloss incolor. Vesti uma calça jeans e uma blusa de frente única roxa.
      Passei a escova de cabelo pelo meu onduloso e loiro cabelo. Eu não tinha tanto tempo assim para arrumá-lo então o prendi em um rabo de cavalo alto e passei chapinha na franja.
      Eu sabia que meu espelho não estava mentindo para mim, eu não estava nada bem e meu reflexo mostrava isso. Dessa vez, até fisicamente eu estava mal.
      Peguei meu celular e o coloquei no bolso da calça. Desci pelo elevador e esperei por Diego na entrada do prédio. Alguns minutos depois ele chegou em sua moto. Eu peguei o capacete em seu braço e subi na moto.
      Ele nos levou ao meu restaurante favorito que ficava apenas há algumas quadras de distância do meu prédio.
      Quando chegamos e ele tirou o capacete eu pude ver que seu cabelo liso e castanho estava com algumas luzes loiras. Estava bonito, mas estranho.
      — Que foi? — perguntou ele após perceber a forma intensa que eu o encarava.
      — Nada — falei, dando de ombros — Só gostei do seu cabelo assim.
      Ele sorriu e nós entramos no restaurante. Fizemos nossos pedidos e comemos em silêncio. Ele pagou e nós fomos caminhar no parque próximo ao restaurante.
      — Mudou de ideia? — perguntou ele sem tentar esconder o sentido de suas palavras.
      Ele havia pedido para ficar comigo uma semana após... Bom uma semana depois que o Matheus morreu.
      Eu estava bastante triste e assustada, então é claro que eu disse não e depois disso eu passei a ignorar as ligações dele. Bom, dele e de todo mundo.
      E agora aqui estávamos nós, caminhando lado a lado em uma bela tarde de sábado sob um céu azulado.
      — Acho que sim — respondi timidamente.
      Ele parou e me fez para também. Diego parou bem na frente fazendo-me olhar dentro de seus olhos verdes-esmeralda. Ele levara uma mecha que escapara do meu rabo de cavalo para trás da minha orelha. Eu sabia o que ele estava prestes a fazer e não impediria. Ele passou a mão pela minha face, pelo ombro e pelas costas e a deixou na minha cintura. Ele me puxou para seu corpo e eu repousei as mãos em seu peito. Aproximamos os rostos e nos beijamos.
      Dessa vez eu não consegui ver outro rosto. Éramos apenas nós dois movendo nossos lábios de forma harmônica. Eu até consegui gostar daquele beijo. Abri os olhos lentamente ao final do beijo e pude vê-lo explodir em uma chama que surgiu no centro de seu peito. Fora horrível ver aquela cena.
      O cheiro é tão insuportável quanto o do sonho. É o mesmo odor de carne queimando que eu senti ao ver Matheus ser morto. E os gritos dele são tão estridentes quanto os que ecoavam na minha cabeça das lembranças de quando eu vira essa cena.
      Eu não fiz nada para tentar salvar Diego e eu sabia que nada o salvaria. Eu assisti a tudo, imóvel e de mãos atadas.
      Lágrimas rolam por meu rosto sem cessar. É a única coisa que sou capaz de fazer. Chorar.
      — Eu avisei que você jamais conseguiria ser feliz com nenhum garoto — zombou uma sombra após as chamas se dissiparam.
      Eu corri para casa. Não era tão longe assim e eu não demoraria a chegar correndo incessantemente.
      Agora eu me lembro de tudo. Tudo mesmo. Eu não sou uma garota normal, eu não sou humana. Eu tentei fugir do que eu era por amar um estúpido humano e isso nos condenou.
      Estou presa a uma maldição. Quando saí do inferno para me tornar humana fui amaldiçoada por uma bruxa, ela era irmã do garoto por quem eu me transmutara.
      “Todo garoto que você começar a gostar, nas chamas do inferno que você saiu ele queimará”. Era o que dizia a maldição da qual eu jamais escaparia.
      Ou talvez ainda houvesse uma saída. Agora eu era humana. Um ser mortal. A morte seria a libertação. Minha morte salvaria por quem  eu futuramente me apaixonaria e me lançaria novamente no inferno.
      Eu vou até me quarto e quebro o espelho. Procuro por um pedaço afiado o bastante para fazer um corte profundo. Sem hesitar, faço três cortes verticais no meu pulso esquerdo. Deito-me no chão, fecho os olhos e espero pelo fim.

Há uma mulher em trabalho de parto. Nasce uma menina. A mulher está feliz, mas não deveria, sua filha é maldita. A criança sou eu. A morte não é a libertação afinal. Só dá inicio a um novo ciclo de mortes fumegantes.  Não há como acabar com a maldição. Estou condenada por toda a eternidade.

Eu respiro profundamente, meu ultimo suspiro, o inicio de uma nova vida. Jamais teria um fim.
                                                                                                                                      Rita Cruz

1 Comentário:

­ ♪ ℓ σ r r α ท ε ♪ disse...

Gostei muitto as poesias retratam exatamente o que eu sinto!!!
Adorei as historias!!!
vc é uma otima escritora!!!

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